quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Circo Vostok: Um universo além do picadeiro

Por Luana Rodrigues e Pedro Garcia


Quando pinta o nariz de vermelho e veste seu terno colorido, José dos Santos Moura se transforma no palhaço Sorriso. No entanto, quando ele põe em prática seus dotes no trapézio, vira Daniel Moura. “José não é nome de trapezista, por isso escolhi Daniel. Acho mais bonito”, brinca o homem que começou a trabalhar quando tinha apenas 14 anos, passou por diversas companhias, incluindo Beto Carrero e Stankowich, e hoje é uma das principais atrações do Circo Vostok, instalado no Parque da Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.
Hoje, aos 40 e com quatro filhos, ele fala orgulhoso sobre a vida que trilhou embaixo das lonas. Em um camarim improvisado atrás do picadeiro, ele aproveita os instantes antes do início do espetáculo para arrumar o filho Cauã – ou melhor, o palhaço Sorrisinho. Juntos, eles executam um dos números mais aplaudidos do espetáculo, em que o menino se transforma em um boneco de pano e exibe uma elasticidade que adquiriu desde cedo.
Com apenas 5 anos, Sorrisinho ainda é tímido, mas desempenha seu papel com a maturidade de um adulto. De terno verde e cabelo alinhado, ele fica quietinho para que o pai o maquie. Depois, veste a roupa de boneco e se esconde em uma minúscula caixa, onde partem para o picadeiro.
Mas a dupla de sorrisos não está sozinha na lida do circo. Outros três filhos do palhaço já trilham suas carreiras: Daniele executa um número de bambolê e trapézio, Josiele é craque na lira, um aparelho aéreo em formato de círculo que fica suspenso por um cabo de aço, enquanto Rafael está aprendendo a se equilibrar no monociclo. Como a vida de palhaço é uma verdadeira volta ao mundo, os filhos de Sorriso nasceram em Estados bem distintos: Mato Grosso, Rondônia, Acre e Goiânia. Mas neste ano vão comemorar o Natal e Ano-Novo em local onde nunca estiveram antes, em solo santa-cruzense.


Do teatro para o circo
Enquanto se maquia sentado em uma cadeira, com um espelho de mão, Fábio Santos conta que é um artista do teatro. O paulista foi ator e diretor, mas trocou a interpretação nos palcos pelas acrobacias na corda, nos panos (vestido de Homem-Aranha) e pela arriscada pirofagia (espetáculo com fogo), a qual lhe garantiu o apelido de “Mr. Fire”.
No circo, o figurino fica por conta dos artistas. Eles mesmos produzem as roupas que usam nas apresentações e também é deles a responsabilidade pela maquiagem. No caso de Santos, não é diferente. Para a primeira entrada, ele aplica o glitter azul e prata em um detalhe que projetou sobre as sobrancelhas. Antes de virar artista de circo, fez um curso de maquiagens com efeitos especiais e hoje coloca em prática os conhecimentos.
Ao falar com a reportagem do Magazine, o artista de porte magro, mas de músculos evidentes, deixa de lado a seriedade e diz que se apaixonou pela arte circense. Começou aos poucos, fazendo alguns trabalhos extras, mas acabou gostando tanto que nunca mais foi embora. Antes de entrar em cena, já no aquecimento, Santos ainda deixa escapar que entre as partes preferidas da carreira, gosta mesmo é de dar entrevista e ser fotografado. Depois, dá uma risada divertida e volta para sua concentração. É o momento de escalar as alturas e ficar suspenso em uma corda, enquanto os santa-cruzenses admiram a ousadia de quem hoje faz do circo a sua nova morada.

Os espetáculos morreram?
Alexandre Vostok pisa nos tablados improvisados em cima da brita e terra batida e caminha em meio às gigantes e pesadas cortinas de lona com a tranquilidade de quem nasceu e cresceu naquele universo. Paraibano de nascença, filho do mundo pelas circunstâncias – viajou durante décadas por todo o Brasil e vários países da América do Sul –, herdou em 1976 o circo do pai, que havia herdado do pai dele, que por sua vez trouxe da Argentina para o País, ainda nos anos 50, a inconfundível marca lançada na Rússia.
A poucos minutos do começo de uma das dezenas de sessões programadas para a temporada em Santa Cruz do Sul, já trajado com as vestes inspiradas nas dos guardas russos com as quais encarna o apresentador do espetáculo, Alexandre sente-se bem como há muito tempo não sentia. No início da década passada, tentou aposentar-se e transferiu-se com a família para Las Vegas, onde mesmo ainda vivendo de números circenses, ao menos escapou do desgaste da itinerância. Em 2010, porém, bateu a saudade de mais de 20 anos de estrada e gargalhadas. “Meus filhos insistiram e resolvemos vir. Era para ser só seis meses, mas agora vamos ficar o ano que vem inteiro. Já tive infarto, diabetes e câncer, mas a última vez que fui ao médico ele disse que nunca estive tão bem. E eu sei que é porque estou fazendo o que gosto”, relata.
Os cerca de dez anos que separaram a transferência para os Estados Unidos e o retorno ao Brasil foram suficientes para surpreender a trupe. O ambiente que encontraram para desbravar com seus trailers e caminhões em pouco lembra a época em que o Vostok esteve no auge e foi o mais famoso circo do Brasil, principalmente nos anos 80. Para começar, o público minguou. Enquanto por muito tempo o circo foi uma das únicas fontes de lazer para as crianças, especialmente no interior, hoje os palhaços, trapezistas e malabaristas enfrentam a nada justa competição com a internet, televisão e shopping centers. “As pessoas querem hoje megaespetáculos, e tem crianças que nunca vieram ao circo.”
Depois, vieram as transformações físicas das cidades. Os enormes terrenos vazios de outrora, onde sobrava espaço para instalar os picadeiros, hoje estão ocupados por imóveis. “Escolhemos Santa Cruz porque sabíamos que aqui tem um parque com espaço para a gente. Em outros locais, não temos onde ficar”, lamenta. Os novos ginásios e auditórios também não ajudaram: antigamente, grupos de teatro e música tinham que aproveitar a estrutura dos circos para ter como se apresentar em municípios pequenos. O Vostok, por exemplo, trouxe os Trapalhões a Santa Cruz há quase 20 anos, e diversas duplas sertanejas também viajaram com a trupe.


FUTURO – Organizar uma turnê, atualmente, é também muito mais caro. As exigências da modernização impuseram uma interminável burocracia e regras cada vez mais rígidas, começando pela proibição do uso de animais (nem coelhos mais podem ser tirados de cartolas), passando pelas restrições à participação de crianças, e as taxas e alvarás, sem falar na natural elevação dos preços em geral. “Antes, o prefeito dizia que podia montar e a gente montava. Hoje, às vezes as prefeituras até querem nos ajudar, mas não podem porque a burocracia não deixa.”Com efeito, as equipes temem o aumento no valor do ingresso, que costuma ser multiplicado várias vezes, uma vez que se trata de um programa frequentado por famílias inteiras.
Paradoxalmente, o número de companhias no Brasil saltou de 200, naquela época, para quase dois mil. As de pequeno porte e regionalizadas proliferaram, ao passo que as grandes desapareceram ou se enfraqueceram – o caso do próprio Vostok. Por sorte, na medida em que surgiram as restrições legais, nasceram também os programas estatais de apoio em dinheiro, que devem assegurar a manutenção da tradição, mesmo em território hostil. E é por isso que, mesmo reconhecendo todas as dificuldades, Alexandre não se constrange em repetir sempre que pode o bordão oficial do Vostok e que, afinal de contas, dá esperanças para os fãs: “E a gente se encontra no circo, hein. Tchau!”.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O insuperável Chico Buarque

Segunda-feira eu e o Pedro fomos a Porto Alegre ver o show do Chico Buarque. Publico abaixo, o relato feito pelo Pedro (o meu jornalista preferido, hehehe).



Talento e maturidade é uma combinação que dificilmente falha. Nada pode ser melhor do que assistir a um músico virtuoso por natureza e talhado pelo tempo. Mas isso não é suficiente para definir Chico Buarque, pois quando se trata dele, é preciso associar experiência de décadas a um talento único e formidável, e cada uma dessas qualidades ficou evidente na apresentação que fez na segunda-feira, em Porto Alegre, quando da estreia de sua nova turnê pelo Estado.

Com um repertório de 30 músicas e aproximadamente 1h50 que equilibrou boa parte das canções de seu disco mais recente com um recorte deveras seletivo de sua extensa obra, o espetáculo fez-se suntuoso em um jogo constante de iluminação e troca de cenários. Chico se mostrou extremamente profissional, poupando espontaneidade e seguindo rigorosamente o roteiro previamente divulgado.

Na verdade, o que se viu ali, no palco do Teatro do Sesi, foi um Chico que lembrava apenas parcialmente o Chico de outrora. Diz-se parcialmente porque praticamente ficou de fora uma das inspirações mais marcantes de sua obra, a crítica, e privilegiou-se o Chico romântico e poeta. Não que músicas como Geni e o Zepelim e A Violeira não tenham lá o seu fundo social, mas naquela montagem o que aflorou foi a força poética explícita de seu texto, muito mais do que inclinações políticas nas entrelinhas. Com efeito, a face realmente contestadora não apareceu – até se insinuou em uma citação breve de Cálice, mas jamais passou disso.

A notícia boa é que Chico está longe de ser um romântico qualquer. Todos os versos que apresentou, novos ou antigos, platônicos ou “de fossa”, eram de uma notável riqueza. Pegue Desalento, O Meu Amor, Injuriado, Futuros Amantes ou Todo Sentimento, apenas como exemplos, ou então qualquer outro, que se manterá inquestionável o título de “grande mestre da MPB”. E diga-se mais: insuperável. E o frenesi da plateia que exigiu bis e tris, e não se constrangeu para ignorar a pompa e se aproximar do palco ao final, deixou claro que isso está muito além de qualquer mito.

O show só desviou de seu tom em um número mais do tipo “malandro”, em que dividiu a frente com o companheiro de banda Wilson das Neves, um legítimo mestre de bateria de escola de samba, em uma simpática dobradinha: Sou Eu e Tereza da Praia.

Por falar em banda, a que o acompanhava era excelente e deu aos clássicos uma roupagem elegante, alinhando-os também na sonoridade com as músicas modernas. Há de se registrar, porém, que nada mudou nas limitações de Chico como intérprete, quer dizer, afinação continua não sendo seu forte – como se isso algum dia tivesse importado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

50 coisas que (quase) todo jornalista já viveu

Qual o jornalista que nunca perdeu um puta tempo procurando um telefone num bloquinho velho de anotações? Que nunca esqueceu o nome de um entrevistado? Trocou o nome de um entrevistado? Nunca prometeu largar o jornalismo por um emprego decente? Acabou a noite num bar para comemorar... para comemorar o que mesmo? Teve um branco em frente à tela do computador? Perdeu um texto inteiro que tinha esquecido de salvar? Passou a madrugada escrevendo um frila para entregar no dia seguinte bem cedinho? Qual jornalista nunca disse “mês, faz isso comigo, não, acaba logo, vai, por favor”? Ficou todo babão com uma matéria publicada? Fez uma merda enorme e passou o resto do dia se sentindo mal? Ganhou um elogio e passou o resto do dia se sentindo bem? Pensou em ganhar dinheiro escrevendo um blog? Fez um belo nariz-de-cera? Achou que sabia mais do que realmente sabia? Tomou chá de cadeira de entrevistado? Precisou explicar para um tio que, embora seja jornalista, não trabalha na Globo? Ficou com preguiça de ouvir a gravação de uma entrevista? Saiu frustrado de uma coletiva por não ter tido tempo ou coragem de fazer uma pergunta? Teve dúvida sobre como escrever “exceção”? Cochilou numa aula de Teoria da Comunicação na faculdade? Se arrependeu de aceitar um frila trabalhoso por uma merreca de grana? Caiu de pára-quedas numa pauta? Teve uma pauta que caiu na última hora? Sentiu medo de não conseguir terminar um texto até o deadline? Chegou atrasado a uma pauta? Qual o jornalista que nunca foi chamado de jornaleiro na família? Almoçou porcaria na padoca? Deixou de almoçar? Folgou numa terça ou quarta-feira? Contou uma piadinha num velório de famoso? Xingou um assessor de imprensa em pensamento? Teve sensação de poder com uma credencial no pescoço? Ganhou jabá bem chinfrim? Trabalhou até em sonho? Se imaginou escrevendo “a matéria”, daquelas de mudar os rumos do país? Recorreu ao “até o fechamento desta edição fulano de tal não foi encontrado”? Passou um carnaval ou um ano-novo de plantão? Pensou em trocar de editoria? Qual jornalista nunca se iludiu? Nunca se desiludiu? Se desiludiu um pouquinho mais? Reclamou do salário? Falou mal de outro jornalista? Comprou rifa com nome de mulher para ajudar algum motorista? Pensou em ganhar um prêmio? Uma menção honrosa? Foi a uma pauta só para paquerar um(a) repórter de outro jornal? Desistiu de trocar o jornalismo por um emprego decente? Qual jornalista nunca se sentiu um pouco bipolar?

*Mais um texto compartilhado do blog do http://desilusoesperdidas.blogspot.com/ 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Teste vocacional para ser jornalista

Li no blog http://desilusoesperdidas.blogspot.com/ e compartilho. Muito bom!

Você tem aptidões para o jornalismo? Se ainda não entrou na faculdade, é hora de descobrir. Se já se formou, saiba se fez a escolha correta. No teste, são apresentados 20 pares de atividades, com as letras “A” e “B”. Anote uma das opções. No final, confira o resultado.

Você prefere...

A) Banco Imobiliário.
B) Detetive.

A) Pagar uma grana alta por um show.
B) Entrar de graça em eventos culturais.

A) Ter que se arrumar todinho para trabalhar.
B) Poder ir desleixado ao trabalho na maioria das vezes.

A) Ir a um churrasco num domingão de sol.
B) Trabalhar num domingão de sol.

A) Degustar um elegante Romanée-Conti.
B) Não se importar em tomar uma Kaiser.

A) Viver trancado num escritório.
B) Bater perna na rua.

A) Pedir sempre o número 1 no McDonald´s.
B) Ir a uma boate gay mesmo sendo hétero.

A) Não ter que pedir uma carona, por vergonha.
B) Tomar banho nu no lago do vizinho.

A) Lidar com planilhas, gráficos, metas.
B) Lidar com gente.

A) Fazer refeições equilibradas a cada três horas.
B) Almoçar coxinha na padaria (quando der).

A) Ver o crescimento dos filhos.
B) Viver as relações familiares remotamente.

A) Viajar todas as férias para a Europa.
B) Viajar para a colônia de férias do sindicato (se tiver férias).

A) Aceitar a vida passivamente.
B) Ser um eterno descontente.

A) Ter medo da morte.
B) Negociar com a morte.

A) Viver com o fone do iPod no ouvido.
B) Escutar a briga entre seus vizinhos com o copo na parede.

A) Andar de carrossel no parque de diversões.
B) Andar de montanha-russa.

A) Contar o dinheiro ganho na Bolsa de Valores.
B) Contar histórias.

A) Planejar o futuro.
B) Viver intensamente o presente.

A) Ser interessante.
B) Ser interessado.

A) Acreditar em ETs, duendes e testes vocacionais.
B) Desconfiar do mundo.

Resultados:

Se a maior parte de suas respostas foi a letra “A”, você não tem a mínima aptidão para ser jornalista. Vai desistir no primeiro plantão.

Se a maior parte de suas respostas foi a letra “B”, seja bem-vindo ao insano mundo do jornalismo. Mas, ó, a vida é dura. Depois não vá reclamar do teste vocacional, hein?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Falso brilhante*

Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.

Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedido de casamento.

Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.

O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo.

Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.

Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.

Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.

Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.

Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.

Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal.

O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura.

O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.

O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.

Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.

São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.

* Fabrício Carpinejar em sua coluna semanal na ZH