quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O insuperável Chico Buarque

Segunda-feira eu e o Pedro fomos a Porto Alegre ver o show do Chico Buarque. Publico abaixo, o relato feito pelo Pedro (o meu jornalista preferido, hehehe).



Talento e maturidade é uma combinação que dificilmente falha. Nada pode ser melhor do que assistir a um músico virtuoso por natureza e talhado pelo tempo. Mas isso não é suficiente para definir Chico Buarque, pois quando se trata dele, é preciso associar experiência de décadas a um talento único e formidável, e cada uma dessas qualidades ficou evidente na apresentação que fez na segunda-feira, em Porto Alegre, quando da estreia de sua nova turnê pelo Estado.

Com um repertório de 30 músicas e aproximadamente 1h50 que equilibrou boa parte das canções de seu disco mais recente com um recorte deveras seletivo de sua extensa obra, o espetáculo fez-se suntuoso em um jogo constante de iluminação e troca de cenários. Chico se mostrou extremamente profissional, poupando espontaneidade e seguindo rigorosamente o roteiro previamente divulgado.

Na verdade, o que se viu ali, no palco do Teatro do Sesi, foi um Chico que lembrava apenas parcialmente o Chico de outrora. Diz-se parcialmente porque praticamente ficou de fora uma das inspirações mais marcantes de sua obra, a crítica, e privilegiou-se o Chico romântico e poeta. Não que músicas como Geni e o Zepelim e A Violeira não tenham lá o seu fundo social, mas naquela montagem o que aflorou foi a força poética explícita de seu texto, muito mais do que inclinações políticas nas entrelinhas. Com efeito, a face realmente contestadora não apareceu – até se insinuou em uma citação breve de Cálice, mas jamais passou disso.

A notícia boa é que Chico está longe de ser um romântico qualquer. Todos os versos que apresentou, novos ou antigos, platônicos ou “de fossa”, eram de uma notável riqueza. Pegue Desalento, O Meu Amor, Injuriado, Futuros Amantes ou Todo Sentimento, apenas como exemplos, ou então qualquer outro, que se manterá inquestionável o título de “grande mestre da MPB”. E diga-se mais: insuperável. E o frenesi da plateia que exigiu bis e tris, e não se constrangeu para ignorar a pompa e se aproximar do palco ao final, deixou claro que isso está muito além de qualquer mito.

O show só desviou de seu tom em um número mais do tipo “malandro”, em que dividiu a frente com o companheiro de banda Wilson das Neves, um legítimo mestre de bateria de escola de samba, em uma simpática dobradinha: Sou Eu e Tereza da Praia.

Por falar em banda, a que o acompanhava era excelente e deu aos clássicos uma roupagem elegante, alinhando-os também na sonoridade com as músicas modernas. Há de se registrar, porém, que nada mudou nas limitações de Chico como intérprete, quer dizer, afinação continua não sendo seu forte – como se isso algum dia tivesse importado.

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